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  • Simone Fuzaro

Sobre o desejo e a necessidade

Conforme me comprometi na quinzena passada, neste artigo iremos aprofundar um pouco nossa reflexão a respeito das reações das crianças à “vontade auxiliar” que exercemos sobre elas e sobre a gama de benefícios concretos que esse exercício traz. 

Para compreendermos melhor as reações dos pequenos diante das escolhas que fazemos por eles em determinadas circunstâncias, precisamos entender a conduta da criança ao nascer.  Nós, seres humanos, somos a espécie que nasce mais débil, ou seja, menos completa, menos preparada para sobrevivência sem auxílio de adultos. Isso é maravilhoso, pois indica que temos uma grande capacidade de crescer e desenvolver nosso potencial. 

Nascemos munidos do arsenal neurológico e orgânico que nos permite lutar pela sobrevivência, contando com a presença de outro que nos ajude. Parte desse arsenal é o sistema límbico.  Ele é formado por algumas estruturas que são responsáveis por gerir emoções (raiva, alegria, prazer), sensações (dor, sono, fome, medo, perigo, ansiedade), aprendizado e memória. Regulam o sono, apetite, temperatura etc. Desse modo, os pequenos reagem às sensações de modo a mostrar suas necessidades básicas e mobilizar o adulto responsável a atender. Os pequenos são muito sensíveis às situações de desconforto e respondem a elas com choro e outras manifestações de irritação. A interpretação dessas reações cabe a nós, adultos, que temos a capacidade de elaborar, interpretar, escolher. Bem cedo, vamos percebendo as necessidades dos pequenos e atribuindo sentido às suas manifestações: esse choro é de fome, esse é de sono, fica bravo quando está sonolento.  Eles também vão aprendendo que atendemos a elas, o que os faz sentir-se seguros. 

Conforme crescem um pouquinho, vão manifestando outros quereres e experimentando outras possibilidades – bater na colher quando vão comer, colocar o dedo na tomada, resistir ao sono no momento de dormir... Então entra em ação a “vontade auxiliar/externa” – o adulto é quem sabe se ele precisa dormir, independentemente de querer ou não. Afinal, cabe a nós estabelecer rotinas, garantir o tempo de sono necessário para o bom desenvolvimento da criança, prevenir acidentes mais sérios. 

Quando a “vontade auxiliar” não vem ao encontro do desejo do pequeno, a reação dele, normalmente, é bem ruim: chora, grita, esperneia, “manifesta sua raiva”, seu descontentamento. Essa reação é puro sistema límbico em funcionamento, muito natural que crianças reajam assim. O que não é natural é que nós, adultos, assustemo-nos com isso; muito menos, que mudemos de atitude por essa manifestação. Precisamos ver nessa “birra” uma grande oportunidade – e aqui falaremos do grande fruto dessa vontade auxiliar –, a oportunidade de formarmos pessoas fortes. 

Quando os pequenos sentem firmeza dos pais no modo como eles comunicam e fazem cumprir essas escolhas, os frutos serão maravilhosos. Primeiro, porque nessas escolhas estão contidos nossos valores: quando determinamos que algo não vai acontecer ou vai acontecer transmitimos um valor, uma preocupação e um cuidado. Quando essa escolha feita com critérios provoca descontentamento no pequeno, ele reage mal e continuamos mantendo firme nossa escolha, estamos “dizendo” a ele com nossa atitude que sabemos que ele é forte e “aguenta” essa frustração, sobrevive a ela. Ser essa “vontade auxiliar” é dar contorno, oferecer limites, cuidar de alguém que não pode se cuidar. Esse estímulo contribui muito com o desenvolvimento de uma outra estrutura neurológica: o córtex pré-frontal, que, conforme explica Maria Critis, em “Aspectos neuropsicológicos do córtex pré-frontal” (2010), “modula a energia límbica e tem a possibilidade de criar comportamentos adaptativos adequados ao tomar consciência das emoções”.

Além de gerarem fortaleza, essas experiências trazem outros frutos: resiliência, capacidade de identificar a autoridade, capacidade de crescer em controle de suas emoções e impulsos, crescer em capacidade de cuidar de si, além de inaugurar a formação de critérios para o futuro exercício da liberdade.

Precisamos lembrar que educar é um processo longo, árduo, que exige fortaleza, carinho e firmeza por parte do adulto – o processo é difícil, mas o resultado vale a pena!

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