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  • Simone Fuzaro

Riquezas da quarentena: reflexões sobre trabalho profissional e familiar

O trabalho é parte integrante da vida do homem. Desde sempre, a sociedade foi marcada pelo trabalho como forma de suprir as necessidades básicas de alimentação, vestimenta, de garantia de sobrevivência. Com o tempo, as relações de trabalho foram se modificando, se ampliando e ganhando dimensões diferentes.

Segundo São João Paulo II, “é mediante o trabalho que o homem deve procurar o pão cotidiano e contribuir para o progresso contínuo das ciências e da técnica, e, sobretudo, para a incessante elevação cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade com os próprios irmãos. E com a palavra trabalho é indicada toda a atividade realizada pelo mesmo homem, tanto manual quanto intelectual, independentemente das suas características e das circunstâncias, quer dizer, toda a atividade humana que se pode e deve reconhecer como trabalho, no meio de toda aquela riqueza de atividades para as quais o homem tem capacidade e está predisposto pela própria natureza, em virtude da sua humanidade” (Encíclica Laborem exercens). Tomado do ponto de vista dessa capacidade humana peculiar, o trabalho tem uma dignidade ampla e fundamental – com ele e por meio dele, aperfeiçoamo-nos e melhoramos o mundo e a sociedade em que vivemos.


Neste momento de pandemia, em que estamos conciliando diferentes trabalhos – os profissionais e os familiares –, temos um campo fértil para reflexões importantes e que trazem à tona valores fundamentais. Não podemos negar que a sociedade moderna atribui valor e status ao homem por sua capacidade de trabalho, ou seja, quanto mais alto o cargo, mais valor tem a pessoa. Isso gera uma corrida na qual já não se identifica se o trabalho está a serviço do homem ou o homem do trabalho.

Segundo Bruna Barcelos, em sua dissertação de mestrado (2009), “a vida inteira de uma pessoa passa a girar em função do trabalho [acrescento: profissional]. Atualmente, quando uma criança nasce, ela já começa a ser preparada para o mercado de trabalho: mal aprende o português e já está fazendo cursos de línguas, computação e diversas atividades extracurriculares que a auxiliarão na busca de um futuro emprego. Assim como a linha de montagem de um produto, a vida do homem contemporâneo começa com a sua formação para o mercado de trabalho (escola e faculdade), passa por momentos de testes (estágios) e, então, ele é absorvido pelo mercado, efetivando-se em um emprego. Quando chega ao fim de sua capacidade produtiva, o homem é descartado e substituído, ficando à margem do processo (aposentadoria)”.

Não é verdade que, lendo essa definição, esvazia-se a grandeza e a dignidade do trabalho humano, pois nos vemos identificados com os produtos, e não com a capacidade criadora e transformadora que o trabalho possibilita?

Tomado do ponto de vista dessa capacidade humana peculiar, o trabalho tem uma dignidade ampla e fundamental – com ele e por meio dele, aperfeiçoamo-nos e melhoramos o mundo e a sociedade em que vivemos.

Quantas e quantas famílias não estão se sentindo absolutamente perdidas no desafio de conciliar o trabalho profissional com o familiar nesta situação extrema que estamos vivendo. Afinal, a importância do trabalho profissional acaba por se agigantar na medida em que promove o sustento material e o status social. E não seria o trabalho familiar, estritamente ligado ao serviço ao outro (educativo, formativo, afetivo), de extrema importância social também? Como ensinar aos filhos a importância, a dignidade do trabalho, se ele estiver estritamente vinculado ao “ganhar o sustento”? Nós mesmos não estamos desmerecendo nosso trabalho profissional ao colocarmos como objetivo fundamental o valor financeiro que ele nos traz?

Sim, essa é uma equação difícil para todos nós, que fomos forjados nessa mentalidade moderna e utilitarista, que produz não somente mercadorias, mas também subjetividades – produz necessidades, relações, corpos e mentes…

Se queremos resgatar a grandeza e a dignidade próprias do trabalho humano, é preciso rever nossos conceitos, nossos valores e nossas condutas. Esta pandemia tem escancarado algumas verdades: o emprego passa – nele somos absolutamente substituíveis. Nossa família não – nela somos únicos, irrepetíveis, importantes pelo que somos! Nosso trabalho é muito mais do que o nosso emprego, tem um valor transformador enorme! Que nossos filhos percebam o verdadeiro valor do trabalho humano mediante nossa seriedade e dedicação com nossos afazeres profissionais e familiares, equilibrados e ricos de sentido.

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