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  • Simone Fuzaro

Pais, menos contemplação, mais ação

Atualizado: 10 de Jul de 2020

Pais, menos contemplação, mais ação

Chamo de contemplativa a postura de grande parte dos pais modernos: percebem as manifestações e assistem às atitudes dos filhos sem se sentir seguros de intervir diretamente corrigindo-os, interditando-os, levando-os às mudanças necessárias ao crescimento adequado. O máximo que tenho observado de intervenção é uma explicação, muitas vezes “inócua”, pois não é acompanhada de atitudes coerentes ao que se diz.


Pais, atenção: as crianças precisam de direção, de interdição, de realidade. Ao nascerem, são movidas por desejo de saciedade, de se manter em estado de equilíbrio, sem fome, sem dor, sem incômodo e, ao menor incômodo, choram e são saciadas. Nesse aspecto, o desejo é o motor de sua vida e sinaliza a falta que precisa ser saciada. Crescer e amadurecer, porém, pressupõe lidar com a falta, com a dor, com a dificuldade e, a partir dessa experiência, criar soluções saudáveis. Não sucumbir. Para isso, precisamos de pais ativos e não contemplativos. Explico-me: precisamos de pais que amem, sejam afetivos, interditem, que permitam que a falta apareça e seja motor de criação. De pais que suportem ver seus filhos sofrendo pequenas “dores”, na certeza de que isso os tornará melhores, mais capazes de viver e de ser felizes.

Ao tomar uma posição contemplativa, os pais deixam órfãos seus filhos, negam a eles o direito da orientação, da direção, da formação necessária de critérios para poderem, no futuro, agir com liberdade e autonomia.

O pior: essa atitude contemplativa se faz presente quase que exclusivamente no momento de interditar, de oferecer limites que permitirão aos pequenos entrar em contato com a falta. Mas a atitude torna-se ativa quando se trata de atender os desejos dos filhos, de possibilitar que realizem suas vontades infantis e sintam-se felizes. Pais, atenção: que felicidade é essa momentânea e fugaz? Acreditam mesmo que ela será suficiente para sustentar a possibilidade de uma futura pessoa lúcida, equilibrada, que sabe o sentido de sua vida e o busca em suas circunstâncias e apesar das adversidades?

Já vemos hoje uma juventude depressiva, ansiosa, carente de sentido para a vida. Um grande número de jovens que busca nas drogas e na bebida consolo e prazer. Um aumento assustador do número de suicídios na adolescência. Tudo isso são sinais evidentes de que o caminho que estamos percorrendo precisa ser corrigido e repensado. Segundo a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl, a depressão está associada ao desejo saciado. Não seria a falta, portanto, o que motiva a depressão, pois a falta de algo estimularia o desejo e o trabalho psíquico. “A busca por si só envolveria um empenho que se contrapõe à apatia do sujeito depressivo. O depressivo não sofre por não obter aquilo que deseja. Ele não deseja nada.” Que triste constatar que estamos aleijando uma geração por não estarmos sendo capazes de agir como exige nosso papel de pais – ao atender compulsivamente os desejos imaturos dos nossos pequenos, nós os impedimos de criar novos e mais elaborados desejos, de amadurecer a vontade, de estabelecer objetivos, de encontrar sentido para a vida e, especialmente, de sentir-se capazes de lutar por eles, de conquistá-los.

Vamos resgatar nossa possibilidade de agir, e que nossa ação não seja atabalhoada. Vamos agir segundo um plano – com objetivos claros –, e vamos nos dedicar neste projeto que, com certeza, é o mais importante de nossas vidas: os filhos.

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