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  • Simone Fuzaro

Entre interações pessoais e virtuais

No último dia 24, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um novo guia de saúde infantil sobre comportamentos sedentários e qualidade do sono.

Preocupada com a crescente taxa de obesidade infantil, a OMS, depois de pesquisas e estudos, apresentou esse guia que traz orientações importantes para o trato com as crianças na primeira infância, ou seja, entre 0 e 5 anos de idade. Embora o foco principal da OMS tenha sido o combate à obesidade infantil, ela acertou em cheio em uma série de outras questões vinculadas ao desenvolvimento infantil, que têm na base o mesmo “vilão” que está sendo identificado como a principal causa do sedentarismo: as telas.

Hoje, é muito comum encontrarmos bebês e crianças pequenas sendo “distraídas” por telas nas mais diferentes situações do cotidiano. Isso certamente tem trazido implicações importantes no desenvolvimento infantil. Coisas que parecem pequenas, simples, passam talvez despercebidas por muitos adultos, mas acabam gerando dificuldades consideráveis ao processo de crescimento das crianças. Por exemplo: a taxa de crianças com atraso no processo de aquisição de linguagem cresceu visivelmente – há uma incidência maior de crianças com 2 anos de idade que ainda não falam quase nada. Outro dado importante: as crianças estão menos aptas do ponto de vista motor. Muito inseguras, arriscam-se menos ou atiram-se sem noção alguma, caem com muita frequência mesmo em espaços apropriados. Também em questões relativas à atenção e “hiperatividade” – apresentam dificuldade de manter-se atentas a atividades curtas, como ouvir uma pequena história, tomar um lanche em grupo etc.

Embora estejamos em plena explosão tecnológica e, sem dúvida alguma, a tecnologia tenha se tornado um instrumento importante em nossa vida, ela é somente um instrumento. Assim como todo e qualquer instrumento, deve ser usado com sabedoria e critério.

O bebê, ao nascer, precisa do outro para poder se identificar, se misturar e separar, até que vá, com o tempo, formando sua identidade. Esse outro, necessariamente, precisa ser uma pessoa que formará laços afetivos, que se implicará com as necessidades e desejos do pequeno, que irá aos poucos colocando limites a ele e introduzindo-o a novidades. Nenhuma tela, por mais moderna que seja, fará esse papel. Ao contrário, elas oferecem à criança estímulos visuais demasiados e um atendimento rapidíssimo das demandas; promovem uma “paralisação” motora, uma vez que as crianças ficam sentadas nos carrinhos ou poltronas assistindo aos vídeos em uma grande alienação do cenário real que a rodeia.

Hoje, é muito comum encontrarmos bebês e crianças pequenas sendo “distraídas” por telas nas mais diferentes situações do cotidiano. Isso certamente tem trazido implicações importantes no desenvolvimento infantil.

Todos os desenhos, aplicativos e jogos para crianças pequenas são extremamente coloridos, barulhentos, repetitivos, enfim, são um “boom” de estímulos, especialmente visuais, que acabam por impedir que a criança foque em um aspecto simplesmente. Normalmente, apresentam uma recompensa imediata – apenas um toque na tela muda a imagem, apenas um toque e vem o reforço, recomeça a cena... Enfim, tudo imediatamente. O pior, as telas são usadas pelos adultos como sucedâneos, ou seja, diante de algo que traz uma dificuldade (um desprazer), apela-se ao tablete, seja para alimentar a criança, para um tempo maior no carro ou para trocar de roupa sem que haja resistência... Enfim, as telas entraram no lugar das cantigas, das histórias contadas ou brincadeiras propostas nas horas mais difíceis, da firmeza nos momentos necessários e do afeto interpessoal fundamental ao crescimento saudável dos pequenos.

Desse modo, a criança não é tomada como pessoa capaz de se relacionar, de ser conquistada para aquele momento, de ser envolvida pelas pessoas e relações que estão disponíveis. Não se criam momentos de convívio desafiadores, dinâmicos, que promovem mudanças. Ao contrário, cristalizam-se posições: “ele só come se for assistindo a X”; “ele somente se troca se estiver mexendo no celular” etc. Na verdade, nessas situações, a criança nem mesmo percebe o que e o quanto está comendo, não percebe que roupa está usando, não compreende que nem sempre pode escolher e que pode passar por situações desconfortáveis e sobreviver.

Vamos olhar com bons olhos essas orientações e aproveitá-las para o crescimento saudável de nossos pequenos.

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