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  • Simone Fuzaro

Em tempos de urgência, como gerar paciência?

Vivemos um fato incontestável: nossa noção de tempo sofreu mudanças drásticas nas últimas décadas. Hoje, tudo é rápido – sabemos de acontecimentos do outro lado do mundo em tempo real, tiramos dúvidas ou buscamos informações na internet em segundos, acessamos jogos ou distrações em qualquer tempo e local. Afinal, o mundo virtual nos oferece essas possibilidades.


Se antes precisávamos esperar o horário de determinado programa de televisão, hoje raramente isso é necessário, pois todos eles estão disponibilizados no Netflix para assistirmos de acordo com nossa rotina. Assim, inúmeros outros exemplos poderíamos dar a respeito do imediatismo que vem se vivendo de anos para cá.

Se, por um lado, essa possibilidade imediatista traz muitas vantagens do ponto de vista da informação e do acesso ao conhecimento, por outro lado acaba instituindo uma ilusão que marca de modo muito complicado nossa vida e especialmente a vida de nossos pequenos, já que nem tudo pode acontecer nesse ritmo que se instaurou, não é mesmo?

O dia continua tendo 24 horas e cada hora, 60 minutos. As gestações continuam durando 40 semanas, as crianças continuam levando um tempo determinado genética e neurologicamente para crescer, adquirir determinadas habilidades físicas, de linguagem, de aprendizagem.... Nem toda a estimulação oferecida proporciona um desenvolvimento instantâneo, graças a Deus.

A adaptação a novas rotinas ou atividades requer um tempo de vivência, de elaboração; o vínculo entre as pessoas precisa de um tempo para ser construído, os conceitos levam tempo para ser aprendidos, ou seja, as demoras, as esperas, são parte inerente da vida humana. Para além de serem próprias da vida humana, são próprias da natureza: mesmo enxertada, a árvore leva um tempo para crescer e os frutos, para amadurecer; enfim: esperar faz parte do ciclo natural da vida e, pasmem: é um bem!!

Se pensarmos a respeito, veremos que tais esperas são uma riqueza – vivenciar, compartilhar, crescer, acompanhar, aprender são processos ricos, são caminhos que, quando trilhados no ritmo adequado, produzem uma riqueza enorme de habilidades e virtudes que capacitam as pessoas para o convívio social saudável, equilibrado, lúcido.

Como será que estamos lidando com essas situações que exigem a capacidade de esperar? Parece-me que o grande desafio que se impõe a nós, adultos, é o de termos condições de discernir que ritmo imprimir a cada situação: o que é urgente, o que é importante, o que precisa ser imediato, o que jamais acontecerá de modo instantâneo e, aliás, tornar-se-á um fracasso se a expectativa for essa, o que é um processo que exigirá envolvimento, paciência, constância, disciplina para que os objetivos sejam alcançados.

Se nós nos deixarmos levar pelo imediatismo existente na atualidade, seremos absolutamente incapazes de fomentar em nossos filhos a fortaleza necessária para que adquiram a virtude da paciência. Se não suportarmos que nossas expectativas não sejam alcançadas rapidamente, como proporcionarmos aos pequenos a experiência de sobreviver às demoras que se farão presentes no cotidiano sem se desmoronarem?

Que eles manifestem de modo intenso a insatisfação diante das demoras e frustrações é absolutamente esperado, porém o inusitado a que se assiste hoje são os pais sofrendo as frustrações dos filhos, como se ambos não fossem suportá-las. Por isso, se pretendemos formar pessoas fortes, pacientes, capazes de enfrentar os percalços com sobriedade e firmeza, não podemos nos deixar levar pelo imediatismo que impera no cenário atual – é preciso olhar com sabedoria para tais esperas e enxergar nelas oportunidades de crescimento, aprendizagem, de forjar pessoas fortes e pacientes que passarão pela vida com maior leveza, liberdade e lucidez.

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