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  • Simone Fuzaro

Brincar de verdade

Trabalhando com crianças na primeira infância por muitos anos, tenho tido a oportunidade de observar algo muito interessante e preocupante: as crianças chegam à escola infantil cada vez menos hábeis do ponto de vista motor. Andam com muita insegurança, desequilibram-se facilmente, caem com frequência cada vez maior, encontram muita dificuldade no manuseio de materiais como giz de cera, pincéis e lápis. Em alguns casos, conseguimos identificar crianças muito inseguras para falar, brincar com os colegas, arriscar iniciativas, e observamos que há nelas um componente de insegurança motora muito grande. Sim, é fácil percebermos que, quando tolhidas de experiências corporais ricas, há um reflexo no desenvolvimento cognitivo e emocional dos pequenos. Afinal, somos uma unidade – corpo, cognição, afeto – e nos desenvolvemos e aprendemos de modo integrado. 

Segundo a terapeuta ocupacional pediátrica Sally Payne, da Heart of England NHS Foundation Trust, “as crianças não estão entrando na escola com a força da mão e a destreza que tinham há dez anos. Para poder segurar o lápis e movê-lo corretamente, é necessário um forte controle sobre os movimentos finos dos dedos. As crianças precisam de muitas oportunidades para desenvolver essas habilidades”. 

Brincar é, por excelência, o meio próprio de se alcançar o desenvolvimento infantil, ganhar habilidades e competências tanto físicas quanto socioafetivas. São muitos os ganhos para as crianças que vivem com intensidade o brincar:

- Crescem em conhecimento do próprio corpo. Ao brincar, a criança explora seus movimentos, suas possibilidades – corre, tropeça, cai, levanta, percebe limites e experimenta capacidades;

- Crescem em autocontrole e atenção. Montar um quebra-cabeça, escalar um obstáculo ou projetar uma brincadeira estimulam essas habilidades fundamentais para a vida; - São estimuladas a posturas de otimismo, afinal, trata-se de uma atividade que gera prazer, ânimo e alegria; - Aprendem com mais facilidade atitudes cooperativas e de negociação, uma vez que brincar é, na grande maioria das vezes, uma atividade de grupo;  - Têm maior possibilidade de crescer em resiliência, pois se abre a possibilidade da frustração genuína – perder num jogo, não ser escolhida a brincadeira que propôs ao grupo, não conseguir o papel que gostaria no faz de conta. Nesse contexto, faz-se necessário enfrentar a frustração, tornar-se capaz de lidar com a situação e de superá-la. Oportunidade preciosa.


É de extrema importância para nossos pequenos que nos conscientizemos do quanto é fundamental para eles brincar de verdade. Fomos perdendo, ao longo dos últimos anos, o compromisso com a brincadeira infantil – nossos apartamentos são menores, menos espaçosos, as nossas vidas mais corridas, os ambientes mais higienizados (há pouco contato com terra, pedras e árvores). Tudo é reto, liso, acolchoado, sem quinas nem obstáculos para que a criança não se machuque (espaços buffet – entendem o que quero dizer?). Os eletrônicos foram tomando conta dos momentos de brincar. Assim, os pequenos brincam “quietos”, sem grandes perigos físicos, porém sem nenhum desafio adequado à sua idade.  Precisamos resgatar para as crianças o direito à brincadeira de verdade – subir e descer de obstáculos, sujar-se na terra, arrastar-se no chão, montar casinhas, postos, cidades com sucatas, papelões, recortar, riscar, rabiscar, rosquear. Brincar de faz de conta, jogar bola, peteca... Enfim, experimentar uma infância rica em vivências, que permita que cheguem ao máximo de seu potencial. Criança brincando faz sujeira, machuca-se, faz bagunça, briga, dá trabalho, porém se diverte, cresce e se desenvolve de modo maravilhoso. Vale a pena!

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