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  • Simone Fuzaro

Atraso na Fala. Vamos Conversar à Respeito?

Em tempos de estimulação virtual abundante, de canais com programação infantil 24 horas e de famílias vivendo uma rotina bastante intensa, tem sido comum encontrarmos crianças falando tarde e pouco, já perceberam?


Crianças que, aos dois anos, já conseguiriam falar diversas palavras (aproximadamente 200), formar pequenas frases, pedir o que querem, tem aparecido nas escolas e consultórios bastante calados, usando gestos para apontar o que desejam, chorando quando não são atendidos, ou seja, com uma oralidade inferior a esperada nessa fase.

Incrível pensarmos que, crianças tão amplamente estimuladas, estejam demorando mais para falar! Para entendermos isso vamos conversar um pouco mais detalhadamente sobre a estimulação que estamos oferecendo e sobre qual nossos pequenos de fato precisam para determinados tipos de aquisições.

Dos 0 aos 3 anos as crianças estão num período riquíssimo de aquisições e construções do ponto de vista neurológico, emocional e cognitivo. Ocorre que atualmente, o que mais se vê, são esses pequenos entretidos com celulares, tablets e vídeos. É comum, estarem sendo distraídos em restaurantes, no trajeto de carro e outras situações, com vídeos ou jogos eletrônicos. Todos se surpreendem com o encantamento que os vídeos exercem sobre os menores e com as habilidades de manuseio que os de 1 a 3 anos já apresentam nesses joguinhos. Acontece que esse tipo de estímulo não é adequado para essa fase do desenvolvimento infantil. Na verdade, o ideal seria que antes dos dois anos eles nem sequer manuseassem eletrônicos, segundo a Academia Americana de Pediatria e que, depois dessa idade, o fizessem por um tempo máximo de duas horas por dia.

Esses estímulos acabam substituindo outros que seriam muito mais frutuosos para o bom desenvolvimento dos pequenos nas diferentes áreas: cantar com/para eles em pequenos trajetos, distraí-los à mesa desenhando, pintando, conversando e brincando.

Os eletrônicos promovem a brincadeira solitária - a interação da criança é com o aparelho, já jogos e brincadeiras tradicionais acontecem necessariamente na interação com o outro. Neles se envolvem afetos, sentimentos - tristeza, alegria, frustração e pessoas que respondem à isso na relação. Também é rica a presença da imaginação, do faz de conta, da criação. Esses fatores são fundamentais no processo de aquisição de linguagem. É importante que a criança balbucie, tenha seus sons reconhecidos e reproduzidos pelo outro, que entre em jogos de repetição/imitação dos sons e palavras produzidas pelo adulto, que cante, interaja, seja acolhida e consolada em suas irritações e não simplesmente distraída por um recurso virtual. Quando não há o que a console, também é positivo que suporte um pouco esse incômodo e vá percebendo que passa. Todos esses estímulos contribuem e muito nos processos cognitivos e de mielinização do sistema nervoso, gerando maior plasticidade cerebral e experiências de aprendizagem riquíssimas.

Não é porque estão na moda, são de fácil acesso e promovem o encantamento dos pequenos que sejam adequados os recursos virtuais. Embora sejam sucedâneos eficientes para momentos de estresse, os prejuízos podem ser maiores que os benefícios quando usados com frequência, especialmente no campo da aquisição de linguagem. Vamos ficar atentos e estimular bem as crianças para que tenham um desenvolvimento saudável.


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